domingo, 3 de dezembro de 2017

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo B

Foi realizado anteontem o sorteio da fase de grupos para a Copa do Mundo 2018. Já fizemos uma análise referente ao grupo A. Vamos, agora, tratar do grupo B. É o grupo que vai proporcionar ao amante do futebol uma primeira rodada reunindo as melhores defesas da África e da Ásia e, ainda, o clássico ibérico (simplesmente os dois últimos campeões europeus).

Grupo B: Portugal, Espanha, Marrocos e Irã.

Portugal

Atual campeão europeu, o selecionado português fez uma eliminatória firme: venceu nove dos dez jogos disputados. Sua única derrota foi na primeira rodada, na Basiléia, para a Suíça, por 2a0. Resultado que foi devolvido na jornada derradeira, em Lisboa.

Portugal: 3ª no ranqueamento da FIFA.
Dos 32 gols anotados nas Eliminatórias Européias, 24 saíram da dupla Cristiano Ronaldo (vice-goleador no torneio, com 15 tentos) e André Silva (9 gols marcados). Mas a equipe de Fernando Santos oferece algo mais que esses dois decisivos jogadores. Principalmente no setor de meio-campo: o talento e a juventude de Bernardo Silva (23 anos) e João Mário (24) proporcionam uma transição eficiente ao ataque. A mobilidade e precisão de ambos permitirá mescladas táticas numa interação onde o próprio Cristiano poderia recuar e avançar para promover triangulações.

Na defesa, a experiência dos 34 anos de Pepe traz a certeza de muita combatividade e a dúvida se o ex-defensor do Real Madrid conseguirá manter um autocontrole psicológico para não desferir cenas tão rotineiras em sua carreira.

A partida inaugural dos lusitanos será o clássico ibérico diante da Espanha. São duas seleções que se encontraram nas oitavas-de-final na Copa do Mundo 2010. De lá para cá, entre as diversas mudanças que aconteceram, pelo menos uma coisa conserva similaridade: a rivalidade. Tem tudo para ser um grande jogo. Na seqüência, Portugal enfrenta Marrocos e Irã. Fernando Santos precisará preparar sua equipe para pelo menos dois cenários opostos: o de saber vigiar a posse de bola adversária (provável desenho diante dos espanhóis) e o de saber impôr seu jogo (tudo leva a crer que marroquinos e iranianos tratarão, prioritariamente, de se defender).

Espanha

Seleção outrora rotulada (injustamente) de "amarelona", a Espanha conquistou o respeito dos críticos (e até dos "modinhas") de 2008 para cá, reforçando suas qualidades com a inserção curricular de dois títulos continentais e um mundial. Hoje, mesmo após cair na fase de grupos em 2014, é tida como uma das favoritas ao título na Rússia. E não é por menos: Julen Lopetegui Argote vem se mostrando um ótimo sucessor dos trabalhos implementados e desenvolvidos por José Luis Aragones Suárez Martínez e Vicente del Bosque Junior. A filosofia do toque de bola permanece forte e com algumas adaptações que a colocam bastante encaixadas nas mudanças que o futebol trouxe - algumas dessas mudanças foram desencadeadas exatamente na busca por um antídoto ao imponente e vitorioso jogo espanhol.
Espanha: 6ª colocada no ranqueamento da FIFA.

A exitosa campanha de nove vitórias e um empate (1a1 com a Itália, em Torino) teve os impressionantes números de trinta e seis gols marcados e três concedidos - a Espanha goleou todos os adversários de sua chave pelo menos uma vez.

Isco, Diego Costa, Álvaro Morata e David Silva anotaram cinco gols cada, sendo que este último ainda contribuiu com quatro assistências. Mas o motor, o cérebro, o ponto de equilíbrio dessa seleção chama-se Andrés Iniesta. Aos 33 anos de idade, o exímio meio-campista lidera o Barcelona e a seleção espanhola com sua visão e distribuição de jogo singulares. Teve a felicidade de marcar o gol histórico na final da Copa do Mundo de 2014 e felicita o amante do futebol com sua presença dentro de campo. Para quem não viu Zidane, aproveite cada oportunidade de assistir Iniesta. Não sabemos quando aparecerá outro que faça-nos lembrar esses dois.

A estréia com Portugal, a segunda rodada diante do Irã e a terceira com o Marrocos serão testes dos mais interessantes para a Espanha, pois estará enfrentando três seleções com ótimos números defensivos, cada qual em seu respectivo continente.

Marrocos

Com a credencial de quem não sofreu um único gol na fase final nas Eliminatórias Africanas, a seleção marroquina tem em sua defesa o que pode ser a chave para surpreender nesse grupo B. Nem a Costa do Marfim de Gervinho, nem o Gabão de Aubameyang, nem muito menos a seleção de Mali conseguiu vazá-los. Marrocos chegou ao Mundial com três vitórias e três empates (leia-se 0a0), com onze gols marcados - quatro deles por Khalid Boutaïb, atacante nascido na França que recentemente trocou o futebol francês pelo turco.

Marrocos: 40ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Para servir Boutaïb em particular e os marroquinos em geral estão Nordin Amrabat (atacante do espanhol Leganes) e Mbark Boussoufa (meio-campista holandês de nascimento e que atua no futebol dos Emirados Árabes Unidos) - cada um deles deu três assistências e participaram, portanto, de mais da metade dos gols de Marrocos na fase final.

Mas como explicar tamanho sucesso - principalmente defensivo - da equipe comandada pelo francês Hervé Renard? Um bom exemplo é olhar para o desenho tático na partida decisiva diante da Costa do Marfim de Marc Wilmots, vencida pelos visitantes por 2a0 e tendo permitido que os Elefantes acertassem somente um chute na direção do gol defendido por Munir. Nessa partida, cujos gols foram anotados pelo lateral-direito Dirar e pelo zagueiro Benatia, foi montado um 4-3-3 que espelhava a formação oponente. Hakim Ziyech, meio-campista nascido na Holanda 24 anos atrás, atuou pelo lado direito do ataque mesmo sendo canhoto, similar ao que a Holanda costuma fazer com Arjen Robben. Inclusive, foi dele o passe para o primeiro gol. Auxiliando por aquele setor, o "garçom" Boussoufa (assistente no lance do segundo gol), que coincidentemente é seu compatriota tanto de nascimento quanto de naturalização. Juntos, criaram duas oportunidades e finalizaram quatro vezes. No flanco oposto, Amrabat e Belhanda contribuíram com um total de sete desarmes no jogo, ajudando a conter as investidas de Aurier, Fofana, Cornet e Zaha.

Se esse sistema vai ser repetido e se vai funcionar diante de Irã, Portugal e Espanha, é preciso aguardar. O desempenho da equipe na Copa das Nações Africanas, que começa em janeiro e tem Marrocos no grupo A (com Mauritânia, Guiné e Sudão) poderá esboçar o que será da seleção de Renard na Rússia. Independentemente disso, é prudente, no mínimo, respeitá-los.

Irã

E por falar em defesas... A seleção iraniana "sobrou" nas Eliminatórias Asiáticas. Liderou com folga e garantiu antecipadamente uma vaga no Mundial 2018, mesmo dividindo grupo com a tradicional Coréia do Sul, que teve de se contentar com o segundo lugar. A campanha invicta iraniana foi de seis vitórias e quatro empates, com dez gols marcados e dois concedidos. Mas um detalhe: esses dois gols aconteceram na última rodada, diante da valente Síria, quando o Irã já era inalcançável na liderança.

Irã: 32ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Na campanha, Sardar Azmoun, atacante de 22 anos que conhece de perto o futebol russo (atua no Rubin Kazan e já vestiu também a camisa do Rostov), foi o goleador da equipe, com quatro gols anotados. Inclua-se aí o gol único na vitória por 1a0 sobre a Coréia do Sul, em Teerã, em 11.10.2016. Outro acostumado a balançar as redes é Mehdi Taremi, atacante do Persepolis que marcou três vezes nas Eliminatórias e "escolheu" momentos decisivos para deixar sua contribuição: na vitória por 1a0 sobre o Catar, fora de casa, e no triunfo sobre a China, também com gol solitário (além de sacramentar os três pontos com o segundo gol nos 2a0 sobre o Uzbequistão). Liderando as assistências quem aparece é o experiente Masoud Shojaei Soleimani, que aos 33 anos atua no grego Panionios, após passagens pela liga do Catar e pelo futebol espanhol, onde atuou por longa data no Osasuña antes de ir para o Las Palmas.

Em amistoso realizado com a Rússia, em outubro, Azmoun marcou o gol que abriu o placar em Kazan após assistência de Taremi. O jogo terminou 1a1 e, nessa oportunidade, Soleimani não foi relacionado pelo professor português Carlos Queiroz, moçambicano de nascimento e que já dirigiu os galácticos do Real Madrid e também a seleção portuguesa. Se contra a Rússia o esquema adotado foi o 4-1-4-1, é muito provável que os esquemas diante de espanhóis e portugueses esbanjem cautela. Mas, antes de enfrentá-los, há o jogo-chave diante de Marrocos. Se seguir essa linha sem buscar uma alternativa, temos aí um confronto condenado ao 0a0...

sábado, 2 de dezembro de 2017

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo A

Foi realizado ontem o sorteio da fase de grupos para a Copa do Mundo 2018. Vamos iniciar agora uma análise de cada chave.

Nessa postagem, esmiuçaremos o grupo A, aquele que tem a anfitriã do Mundial como cabeça-de-chave e que, para muitos, é o grupo menos forte tecnicamente. Para se ter uma idéia, a partida de abertura da Copa será entre as duas seleções de pior ranqueamento no torneio. Seria coincidência? Tomara que sim. Basta de maracutaias no mundo do futebol...

Grupo A: Rússia, Arábia Saudita, Egito e Uruguai.

Rússia

Única seleção classificada para a Copa sem precisar jogar as repescagens (habitual privilégio do país-sede), a Rússia, apesar de todas as suas limitações, caiu numa chave que lhe dá o direito e o dever de sonhar com uma vaga nas oitavas.

Rússia: 65ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Com exceção do ataque, a seleção comandada por Stanislav Cherchesov possui jogadores com pelo menos trinta anos de idade em todos os setores do campo. E dois deles são nomes relevantes no cenário europeu: Igor Akinfeev (31), eterno goleiro do CSKA Moscou, e Yuri Zhirkov (34), jogador polivalente de vasta experiência, com direito a passagem pelo Chelsea de Roman Abramovich, e atualmente no Zenit Saint Petersburg.

A equipe conta em seu elenco com a presença do lateral brasileiro Mário Fernandes (27), que, antes de trocar o Grêmio pelo CSKA Moscou, recusou uma convocação para a seleção brasileira de Mano Menezes.

Mas é nos pés do ambidestro Alan Dzagoev (27) que residem as maiores esperanças da torcida russa. O meio-campista do CSKA Moscou, parceiro de longa data de Akinfeev, foi nomeado para a equipe do Campeonato Europeu Sub-21 de 2013, sendo premiado ao lado de nomes como o alemão Holtby, o italiano Verratti e os espanhóis Illarramendi, Isco, Koke e Thiago Alcântara.

É fato que trata-se de uma Rússia carente de um articulador mais hábil - Andrey Arshavin seria um nome encaixadíssimo para a função, mas questões diversas o afastaram do seu potencial. O ataque também não tem um personagem que imponha maior respeito às defesas adversárias. Mas o fator casa, a experiência de alguns jogadores e a "sorte" de cair numa chave acessível permitem vislumbrar uma classificação. Classificação essa que passa necessariamente por um resultado positivo na estréia diante da seleção saudita, adversária mais frágil do grupo. Na segunda rodada, o confronto será diante do sólido jogo coletivo egípcio, o que provavelmente trará complicações à seleção russa. E o fechamento é com o Uruguai, em tese a maior força da chave - seria bom não depender de uma vitória nesse jogo, a não ser que os cascudos sul-americanos já entrassem em campo com a vaga assegurada.

Em entrevista após o sorteio, Vicente del Bosque, técnico campeão do mundo com a Espanha em 2010, disse sobre a possibilidade de os espanhóis enfrentarem os russos nas oitavas: "a Rússia joga como anfitriã e isso imprime caráter".

Arábia Saudita

Classificada ao Mundial após conquistar o segundo lugar no hexagonal final pelas Eliminatórias Asiáticas (terminando atrás somente do Japão e a frente de Austrália, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Tailândia), a Arábia Saudita é uma incógnita. Não apenas para mim, que desconheço o futebol apresentado pela seleção, mas também para os adversários, que terão de estudar uma equipe cujos jogadores atuam basicamente em clubes longe dos holofotes hegemônicos. E as incertezas estão provavelmente a pairar sobre os próprios sauditas: afinal, o que esperar de uma seleção que era treinada pelo romeno Aurelian Cosmin Olăroiu na Copa da Ásia, passou aos cuidados do holandês Bert van Marwijk nas Eliminatórias Asiáticas e hoje está sob comando do argentino Juan Antonio Pizzi?

Arábia Saudita: 63ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Particularmente, me causa surpresa a não manutenção do vice-campeão mundial de 2010 no comando tático da equipe saudita. Mas se foi essa a escolha da federação de futebol do país, vida que segue, tanto para Bert quanto para a seleção.

Uma coisa é certa: Pizzi tem como local de nascimento a chave para a Arábia ir adiante: Santa Fé. Ser movido pelo verde da esperança que colore a bandeira da nação pode ser o ingrediente determinante para que os sauditas surpreendam o grupo e o mundo com a classificação. Pizzi, apesar de falhar na empreitada de levar o Chile à Copa, assina a vitoriosa campanha na Copa América Centenário de 2016, com direito a um memorável 7a0 sobre o México de Juan Carlos Osorio na fase quartas-de-final.

Nawaf Shaker Al Abid, meio-campista de 27 anos e multi-campeão com o Al Hilal, figura no topo da lista de goleadores nas Eliminatórias Asiáticas, tendo deixado sua marca cinco vezes (quatro delas cobrando pênaltis). E como nem só de gols e pênaltis convertidos vive o bom jogador de futebol, Nawaf é também o saudita com maior número de assistências naquele torneio, tendo servido por três vezes seus companheiros para chegarem às redes - mesmo número de passes para gol do também meio-campista Taisir Jabir Al Jassim, de 33 anos e igualmente acostumado aos títulos em sua trajetória no Al Ahli.

Agora, fica a expectativa da montagem do elenco que irá à Rússia enfrentar os anfitriões na partida inaugural. Será que Pizzi tentará preparar a equipe com uma formação ofensiva, a exemplo do que fizera com os chilenos? O jogo diante dos russos tem ares de fundamental, inclusive para se ter uma idéia do tamanho da responsabilidade pelo resultado na segunda rodada diante do Uruguai. Lembrando que o Uruguai vem há alguns anos mostrando dificuldades ao enfrentar sistemas fechados que se baseiam em contra-ataques de transição rápida. Na Copa de 2014, sucumbiu diante da Costa Rica mas conseguiu a classificação diante de ingleses e italianos. De lá para cá, a base e o comando tático da Celeste foram conservados. Potencial vantagem para a Arábia de Pizzi, que tem muito material para estudar este adversário. Se tudo der certo e for vontade de Alah, poderá haver bastante coisa em jogo na partida derradeira com o Egito.

Egito

Mohamed é um dos nomes de Maomé, Aquele considerado no islamismo como o mais recente e último profeta do Deus de Abraão. Mohamed também é o nome dos dois maiores jogadores da atual geração egípcia: Elneny, do Arsenal, e Salah, do Liverpool, ambos com 25 anos de idade e que desfilam seus talentos na maior liga de clubes do mundo, dando à seleção um salto de qualidade que a coloca como forte candidata à classificação no acessível grupo A.

Egito: 33ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Mohamed Salah foi o único jogador nas Eliminatórias Africanas a marcar cinco gols na fase final, incluindo aí os dois da vitória por 2a1 sobre o Congo (desempatando a partida nos últimos minutos e classificando os egípcios para a Copa). Contribuiu ainda com duas assistências, tendo participado, portanto, de sete dos oito gols do Egito na derradeira etapa das eliminatórias.

Estará em maus lençóis a seleção que se preocupar exclusivamente com Salah. Antes da bola chegar até ele, costuma passar pelos pés de Mohamed Elneny, meio-campista com bom passe e grande visão de jogo. São dois trunfos do argentino Héctor Raúl Cúper, treinador que fez história ao conduzir o Valencia a duas finais de Liga dos Campeões da Europa.

E para quem acredita que é importante contar com alguém de vasta experiência dentro de campo, o Egito tem em seu goleiro alguém que cumpre com louvor esse papel: aos 44 anos de idade (fará o próximo aniversário em janeiro), Essam Kamal Tawfik El Hadary carrega em sua bagagem pessoal um vice-campeonato (2017, no Gabão) e três títulos da Copa Africana de Nações (2010, em Angola; 2008, em Gana; e 2006, dentro de casa).

Há alguns anos, talvez mesmo antes de El Hadary ser goleiro da seleção, pode-se dizer que o Egito trata-se de uma das seleções mais equilibradas de seu continente, marcada pelo sólido jogo coletivo. Hoje, tem incorporado a isso a presença de pelo menos dois atletas acima da média e capazes de decidir partidas. Não há qualquer razão para julgar que essa seleção vá à Rússia apenas fazer número: será um adversário duríssimo tanto para os uruguaios na estréia quanto para os anfitriões na segunda rodada. Já dá para cravar como candidata a surpreender no Mundial.

Uruguai

Aquela camisa que você respeita. Aquela seleção que a história não dá brecha para que a subestimem. Aquela mística que complexifica a discussão da modalidade esportiva denominada futebol. Afinal, com explicar alguns dos sucessos uruguaios a não ser por algum aspecto que transcende o mundo visível?

Uruguai: 21ª no ranqueamento da FIFA.
Luís Suárez e Edinson Cavani formam uma das principais duplas de ataque do futebol mundial. Cada um nas suas características, mas ambos sendo retratados naquele autêntico espírito uruguaio, de se dedicar a cada lance e acreditar em cada situação que a partida lhes oferte.

Sinto falta de um homem de ligação na equipe de Óscar Tabárez. Esse homem seria Lodeiro em 2010. Não funcionou. E, via improvisação, "surgiu" Forlán, que se sagrou um dos destaques na campanha semifinalista da Celeste. Em 2014, Rodríguez não conseguiu nem de longe o mesmo impacto no último terço de gramado. E, de lá para cá, não houve um único nome que tenha emplacado para a função. De Arrascaeta pode vir a ser esse elemento, mas precisará ser desenvolvido por Tabárez. Será, provavelmente, o maior desafio do treinador, que conseguiu montar uma defesa firme (Diego Godín lidera o setor com maestria) e conta com um ataque potencialmente avassalador.

O sorteio acabou sendo generoso com a seleção uruguaia ao ponto de ser inegável haver um favoritismo sul-americano na chave e uma responsabilidade em, pelo menos, obter a classificação às oitavas. Talvez a parte negativa disso tudo seja o fato de que egípcios, sauditas e russos poderão especular o jogo uruguaio e adotar uma postura de contra-ataques, situação com a qual o Uruguai vem apresentando maior dificuldade. Caso conquiste de fato a classificação, é o típico adversário que nem Portugal, nem Espanha, nem ninguém quer enfrentar em uma partida eliminatória. Afinal, é aquela camisa que você respeita...

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Grêmio Vence Lanús Em La Fortaleza E Fatura O Tri Continental

Pela terceira vez na história, o Grêmio é campeão na Copa Libertadores da América.

E a página que se escreve em 2017 há de reservar letras garrafais para figuras como Marcelo Grohe (principalmente pelas duas grandes defesas no primeiro tempo no jogo de ida), Arthur (um gigante diante do Botafogo e nomeado o melhor em campo nessa partida final), Geromel (o "Capitão América") e Luan (o mais bem dotado tecnicamente e autor de um gol desconcertante na decisão).

Também não se pode esquecer do trabalho realizado por Renato Gaúcho. Embora o time tenha oscilado ao longo da temporada, é fato que, nos momentos mais inspirados, o Grêmio jogou a bola mais redonda entre todos os times da Série A nacional. Lembrando que trata-se de um elenco com diversos jogadores que atravessavam momentos de declínio em suas carreiras, mas que Renato abraçou motivacional e esportivamente, como Leonardo Moura (tratado por alguns como "ex-jogador em atividade"), Cortez (alguém lembra que ele já foi convocado para a seleção brasileira?), Fernandinho (de jogador emprestado pelo clube a autor do primeiro gol nessa final em Buenos Aires) e Lucas Barrios (ex-Borussia Dormund e atual campeão da Libertadores).

São muitos elementos que tornam a conquista justa, mostrando que o Tricolor Gaúcho tem força suficiente para voar alto. A meu ver, nem precisaria de um veículo aéreo não tripulado - vulgo drone - para alcançar as alturas. Próxima parada: Emirados Árabes Unidos.

O jogo

Fernandinho celebra o êxito de sua jogada individual. Foto: Reuters.
O primeiro tempo de jogo deu ao torcedor gremista uma realidade que poucos devem ter ousado sonhar em suas noites melhor dormidas. Num contra-ataque após erro do adversário na última linha de defesa, Fernandinho arrancou em velocidade impressionante e concluiu firme para estufar a rede argentina aos vinte e seis minutos e levar ao delírio cerca de cinco mil gremistas no lotado estádio La Fortaleza.

Conseguindo chegar ao campo de ataque com uma rotina e envolvimento maior do que no jogo em Porto Alegre, o Grêmio deixava os donos da casa desconfortáveis na partida. A saída de bola do Lanús, característica marcante no time de Jorge Almirón, mostrava-se falha e até mesmo perigosa para dar mais chances ao adversário recuperar a posse. Tudo isso fruto, também, da postura do Grêmio de não abdicar de uma marcação desde as proximidades da baliza adversária, ao ponto de em plena reposição de linha e fundo serem vistos pelo menos três jogadores cercando a grande área defendida por Esteban Andrada.

Ainda no primeiro tempo, a vantagem, que já era boa, ficou ainda melhor: Luan recebeu no comando de ataque, carregou a bola sem receber um combate mais ativo e esbanjou calma e categoria para concluir o lance numa cavadinha que caprichosamente rumou para o canto direito do gol. 2a0, aos quarenta e um.

Na volta do intervalo, o Lanús cresceu. Não era um crescimento grande o bastante para ameaçar a margem de gols construída pelo time visitante, mas pelo menos serviu para trazer alguma emoção ao jogo: aos vinte e cinco, Jaílson cometeu pênalti na condição de último homem, puxando o adversário que ficaria em totais condições de finalizar. O árbitro paraguaio Enrique Cáceres errou acertando e acertou errando: marcou a penalidade mas não expulsou o infrator, limitando-se a um cartão amarelo que recebeu protestos dos donos da casa. Na cobrança, Sand converteu e isolou-se na lista de goleadores na competição, com nove.

Houve algumas outras chegadas da equipe argentina, mas sem muita contundência. A expulsão de Ramiro aos trinta e sete reacendeu a esperança num novo milagre para um clube que, na semifinal, conseguiu uma virada épica sobre o River Plate, em um cenário similar ao da final com o Grêmio. Mas o Grêmio manteve-se firme. Resistiu, embora tenha se abdicado de atacar como outrora. Talvez estivesse faltando fôlego. Talvez fosse o componente emocional - Renato era visto às lágrimas abraçado com Léo Moura aos quarenta e oito de um jogo que iria até os cinquenta. Deve ser porque, no fundo, eles já sabiam que estavam além dos cinquenta. Estavam na eternidade de uma conquista histórica.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Grohe Salva, Cícero Marca E Grêmio Conquista Vantagem Sobre Lanús

As finais na Copa Libertadores da América 2017 começaram em Porto Alegre e terminarão em Buenos Aires. A julgar pelo equilíbrio visto nessa partida de ida, o título continental tem tudo para ser definido em detalhes no jogo de volta.

O Grêmio tentou ser dominante diante do adversário. Mas a única imponência vista no estádio estava nas arquibancadas, com a festa áudio-visual proporcionada pela fanática torcida tricolor. Dentro de campo, era o Lanús quem demonstrava maior equilíbrio tático e emocional para fazer a bola rodar.

E se o primeiro tempo terminou zero a zero, o maior responsável por isso tem nome e sobrenome: Marcelo Grohe. O goleiro gremista fez duas intervenções importantes, ambas de alto grau de dificuldade, sendo uma em chute cruzado rasteiro no canto direito e outra em cabeceio firme para o chão pelo lado esquerdo.

Na segunda etapa, o volume de jogo dos donos da casa até aumentou, mas a criação de jogadas era escassa. O Grêmio chegava a ser previsível. Até que, dois elementos vindos do banco de reservas, participaram do gol único na partida: após levantamento de Edílson, Jael (que entrara no lugar de um quase inoperante Lucas Barríos) desviou e Cícero (que substituíra Jaílson) conseguiu dar um toque antes da chegada do goleiro Esteban Andrada, encaminhando a redonda para o fundo da rede.

A vitória com gol aos trinta e sete minutos no segundo tempo se confirmou após os mais de cinco minutos de acréscimos. Com direito a reclamação gremista por um suposto pênalti em jogada aérea - pareceu, de fato, ter havido um deslocamento faltoso no lance.

Mas o fato é que o placar não reflete o que foi a partida - a igualdade soaria mais apropriada a julgar o desempenho de ambas as equipes. Bola por bola, achei que os dois finalistas ficaram devendo. Mas o Lanús, principalmente pelo primeiro tempo, mostrou maior organização e proposta de jogo.

Resta, agora, ver quais serão as posturas dos times para o encontro derradeiro, na Argentina. Entre planos de jogo, vôos de drones, palestras motivacionais e algo mais, há fortes indícios de que haverá emoção na decisão. Sem a regra do gol qualificado como critério de desempate, aumenta sensivelmente a probabilidade de uma disputa de pênaltis. Espiemos. Digo, aguardemos.
Sand e Kannemann, com Arthur próximo, disputam o lance: jogo teve muita intensidade. Imagem extraída de FourFourTwo.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

100.000 Visualizações - Valeu, Amantes Do Futebol Arte!

Saudações.

Na semana passada, este blógui alcançou a marca de 100.000 visualizações desde que foi inaugurado em 2010. Uma média de cerca de 14.000 visualizações por ano.

Esta postagem é um agradecimento a cada um que participou direta ou indiretamente desses números. Obrigado!

Daqui a menos de duas semanas, teremos o sorteio dos grupos para Copa do Mundo 2018 e a nossa idéia é elaborar algo relacionado a cada chave para irmos publicando durante o mês de dezembro.

Lembrando que as sugestões de vocês são sempre bem-vindas. Afinal, esse espaço é para os amantes do futebol arte. Cada troca de passe faz a diferença antes da finalização.

Abraços e fiquem com esse golaço de Otero, anotado ontem, no jogo entre Atlético Mineiro e Coritiba.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

36 Anos Depois, Peru Voltará A Jogar Um Mundial

A última vaga para a Copa do Mundo 2018 foi conquistada nessa noite. Noite que se tornou histórica e que decretou o feriado no dia seguinte no Peru. Sim, por decreto presidencial, a população peruana poderá comemorar de fato e de direito esse feito de retornar a um Mundial após 36 anos.

O selecionado de Ricardo Gareca, que já havia feito belas apresentações na Copa América e uma campanha de recuperação nas Eliminatórias Sul-Americanas, mostrou mais uma vez suas virtudes. Desde a escalação com vários jogadores de vocação ofensiva até a própria postura em campo, viu-se um time absolutamente determinado e comprometido a buscar a vitória.

E a vitória foi alcançada. Materializou-se com os gols de Farfán e Ramos, em assistências de Cueva. O primeiro, quando o Peru era soberano na partida. O segundo, em momento fundamental, pois a Nova Zelândia subia de produção e de confiança.

O futebol comemora junto a classificação peruana. Sempre bom ver uma equipe treinada para atacar, liberando os laterais, encostando os meias no ataque, rodando a bola e buscando o gol a todo momento. Um belo trabalho de Gareca que fica eternizado com essa vaga na Copa. Há muitas características no Peru que, infelizmente, não vemos na seleção brasileira. Mas a essência do jogo peruano nada mais é que o DNA dos bons tempos da maior campeã de Copas. O Peru nos representa.
Ramos e companheiros comemoram o segundo gol peruano. Imagem extraída de Diario Correo.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Suécia Desbanca Itália E Confirma Vaga Na Rússia

Roberto Baggio, Alessandro Del Piero, Francesco Totti. Três lendários camisas 10 que a Itália ofertou ao futebol nas últimas décadas. Todos aposentados, com seus nomes eternizados em grandes atuações e diversas conquistas pessoais e coletivas. Fico imaginando o que pode ter passado pela cabeça deles ao assistirem o jogo desta noite de 13.11.2017...

A Azzurra, de tanta tradição e quatro títulos mundiais, precisava de uma vitória por dois gols de diferença diante da Suécia para ir à Copa do Mundo 2018. E, pela primeira vez desde as Eliminatórias para o Mundial de 1958, falhou. Em 1958, nenhum daqueles três era nascido. Em 1958, o Brasil ainda estava para conquistar seu primeiro título de campeão do mundo. Em 1958, o futebol profissional ainda não havia sido apresentado a Mané Garrincha.

Essa Itália de 2017 obriga a voltarmos mais de meio século no tempo. Não havia referência mais recente de um fiasco tão grande no futebol daquele país. Em 2010, uma Copa após o tetra, uma queda na primeira fase causou bastante barulho. Mas o que dizer de agora? Senhoras e senhores de todas as gerações, o agora da Itália é uma vergonha.

Vergonha ser eliminada pela Suécia? Não. Vergonha ser eliminada pela Suécia da forma que foi eliminada pela Suécia. Mesmo diante de um adversário que abdicava de atacar - seja por estratégia covarde, seja por sentir a pressão psicológica do jogo no San Siro -, os italianos foram até o apito derradeiro com três zagueiros em campo. Lorenzo Insigne, o mais cerebral jogador desta geração, sequer entrou no jogo. E o resultado é a vergonha.

Cabe aos suecos celebrar o feito surpreendente de sobreviver a um grupo com Holanda e França (a Laranja também ficou fora da Copa) e, de quebra, superar uma seleção tetracampeã mundial. Porém, há que se frisar que a atuação de hoje não corresponde ao feito sueco. Há muito o que ser melhorado até junho do ano que vem. Para a Itália, é inescapável uma reformulação intensa. Que deve começar pelo comando técnico mas que, necessariamente, deve passar pela filosofia por trás de cada escolinha de futebol no país até os centros de treinamento dos principais clubes nacionais. A paixão do povo italiano precisa ser respeitada. E hoje, com Insigne no banco, três zagueiros em campo e substituições que tiraram qualquer organização tática na construção das jogadas, o que mais faltou não foi o gol - foi respeito com o futebol. E, naturalmente, com Baggio, Totti e Del Piero.
Suecos festejam a histórica classificação em Milão. Foto: AFP.

domingo, 12 de novembro de 2017

Sem Gols Nem Emoção, Croácia Elimina Grécia E Emplaca Penta Na Repescagem

Após uma expressiva vitória dentro de casa (4a1), a seleção croata foi à Grécia sabendo que somente uma tragédia grega, ou melhor, um heroísmo grego, lhe tiraria da próxima Copa do Mundo.

A alegria croata contrasta com a desolação grega. Foto: Catherine Ivill / Getty.
Infelizmente para o futebol, a virtuosa seleção da Croácia sentou em cima do regulamento e jogou pragmaticamente para confirmar a vaga no Mundial 2018.

Poderia limitar esse texto a frisar o quanto ficou devendo futebolisticamente uma seleção que conta com jogadores do nível de Rakitic, Modric e Perisic. Mas não. Vamos colocar o foco nos gregos - até porque raramente se vê a história sendo contada a partir da parte "derrotada".

Na fase de grupos, a Grécia caiu na mesma chave de Bélgica, Bósnia-Herzegovina, Chipre, Estônia e Gibraltar. Conseguiu o segundo lugar (dois pontos a mais que os bósnios) e foi a única seleção capaz de evitar os 100% de aproveitamento dos belgas ao empatarem por 1a1 em plena Bruxelas. Detalhe: foi levar o gol de empate aos quarenta e três no segundo tempo.

Nessa repescagem, o cruzamento trouxe como presente de grego uma embalagem quadriculada. Dentro dela, um conteúdo forte, difícil de ser quebrado. Com a rodagem de quem obteve êxito em todas as quatro vezes em que precisou jogar a fase de repescagem para a Copa do Mundo. E a realidade é que a Grécia, no jogo de ida, cometeu muito mais erros do que reza a cartilha ao se enfrentar um adversário tecnicamente superior. Os quatro gols sofridos trazidos na bagagem eram pesados demais, embora a esperança residia no gol marcado fora.

Mas o milagre não aconteceu. Não faltou entrega. Sokratis Papasthatopoulos agigantava-se em cada disputa de bola. Kostas Mitroglou procurava cada centímetro disponível na linha de defesa oponente. Vassilis Torosidis percorria o campo procurando participar ativamente pelo flanco direito. A trinca Christodoulopoulos, Zeca e Bakasetas corria "pacaceta", mas sendo incapaz de criar o volume de jogo necessário para causar alguma fissura no sistema de jogo croata.

Simplesmente não deu. Eram necessários pelo menos três gols e o único que saiu foi corretamente invalidado por impedimento. Com tudo isso, lá para os quarenta e quatro no segundo tempo, ocorreu o fato mais emocionante na partida: o som dos cânticos e dos aplausos vindos das arquibancadas no estádio Georgios Karaiskaki. Era a torcida grega reconhecendo a dedicação de seus conterrâneos. Um país que atravessa crise socioeconômica severa tentava a alegria pela via do futebol. Ela pode não ter vindo com a almejada vaga no próximo Mundial, mas a celebração demonstrou que viver é algo maior do que apenas vencer. É reconhecer.

Parabéns aos gregos pela bonita manifestação de apoio e que a seleção croata, merecedora da classificação, possa render na Rússia algo próximo ao futebol que dela se espera. Independentemente de resultado. Os deuses da bola serão gratos.

sábado, 28 de outubro de 2017

Com Atuação Espetacular, Inglaterra Faz 5 Na Espanha E É Campeã Mundial Sub-17

Senhoras e senhores, meninas e meninos de todas as gerações, neste vinte e oito de outubro de dois mil e dezessete tive o prazer de assistir uma das melhores atuações de uma seleção de futebol.

Gibbs-White e Sessegnon comemoram o empate. Foto: Jan Kruger / FIFA.
A Inglaterra Sub-17, treinada pelo galês Steve Cooper, deu um verdadeiro espetáculo no estádio Salt Lake, em Kalkata, Índia. Se séculos atrás os ingleses iam até a Índia para buscar metais preciosos, dessa vez o seu precioso futebol lhe rendeu o troféu de campeão mundial da categoria.

Sair perdendo para a qualificada seleção espanhola por 2a0 não é simples. Foram dois gols de Sergio Gómez em duas assistências de César. O segundo gol, aliás, uma pintura para Picasso nenhum botar defeito. Mas os ingleses mantiveram a cabeça erguida e impuseram seu jogo. Um jogo de posse de bola. Posse de bola essa tão boa, mas tão boa, que colocou a Espanha na roda. A Espanha, que ficou reconhecida mundialmente por ter a bola nos pés, hoje viu seu adversário envolvê-la.

Sessegnon e Foden formaram uma dupla sensacional pelo flanco direito. Muitas jogadas de qualidade aconteceram envolvendo pelo menos um desses dois jogadores. O primeiro gol inglês, aliás, foi num cabeceio certeiro de Brewster após cruzamento milimétrico de Sessegnon. No segundo tempo, Gibbs-White completou pra rede após passe de quem? Dele, Sessegnon. Mais tarde, Hudson-Odoi fez a assistência e Foden virou a partida. Nos últimos minutos, a Inglaterra tratou de transformar a virada em goleada, com gol de Guehi e mais um de Foden, que teve uma atuação digna do seu nome (perdoem o trocadilho).

Não faço idéia de até onde irá essa geração inglesa. O que posso afirmar com segurança é que esses garotos formaram uma equipe maravilhosa e plenamente merecedora do título mundial.

Em 2014, logo após a partida com a Costa Rica, em que a Inglaterra se despedia da Copa do Mundo no Brasil com um único ponto ganho na fase de grupos, foi dada uma declaração à imprensa dizendo que começaria ali um novo projeto desde a base. Parece que os frutos desse plantio são doces. Sem pressa, vamos ver o que está por vir. Uma Inglaterra campeã mundial nas próximas Copas? Possível. Mas uma coisa é certa: o futebol agradece por cada equipe que jogue com a graça e a elegância que jogou esse selecionado inglês Sub-17. Deu gosto. Parabéns aos envolvidos.

Mali Joga Mais, Mas Brasil Vence E É 3º No Mundial Sub-17

Havia lido e ouvido alguns comentários positivos sobre a equipe brasileira no Mundial Sub-17. Apenas hoje, na derradeira apresentação, acompanhei uma partida da seleção. E simplesmente não gostei do que vi.

O time comandado por Carlos Amadeu era organizado em suas linhas (por vezes inclusive formando uma linha de cinco na defesa, algo raríssimo de se ver no Brasil). Procurava sair para o jogo em velocidade. Mas quase sempre havia algo a atrapalhar o rendimento da transição ao ataque.

Em algumas situações, o individualismo atrasava o lance - Lincoln se mostrou um especialista em prender a bola nos momentos em que mais se fazia necessário soltá-la para um companheiro.

Em outras situações, faltava exatamente dar aquela aproximação para a tabela, a triangulação, a infiltração - Paulinho se mostrava o mais lúcido nesse sentido, com Marcos Antônio também se apresentando para participar, mas a química geral não dava muito certo. Não sei se o desempenho seria diferente caso ainda houvesse chance de título. Mas uma disputa de terceiro lugar ainda é um evento a ser tratado com mais zelo do que mostrava a atuação brasileira.

Fato é que, chance de gol por chance de gol, era Mali quem tinha mais a lamentar pelo zero a zero. Chutes que passaram perto da trave; defesas do goleiro Gabriel Brazão; passes a atravessar a pequena área brasileira. Eram muitos elementos que mostravam o selecionado africano como merecedor da vitória.

Porém, o futebol, que passa longe de ser uma ciência exata, aprontou das suas. Num chute errado de Alan Souza (daqueles que saem tão fraco que mais parecem uma bola recuada), o goleiro Youssouf Koita teve a infelicidade de permitir que a bola passasse por si. Provavelmente por ser um lance aparentemente tão simples, o "Koitado" imaginou que era só puxar a bola e sair jogando. Nada feito. O "puxar" a bola não aconteceu e, como ele sequer abaixou as pernas para fazer o bloqueio, a redonda tomou o rumo da rede.

Depois do fatídico lance, Mali buscou o empate em jogadas frontais e também lateralizadas. Não chegou a ser uma pressão das mais intensas, mas serviu para mostrar que o Brasil tem muito a melhorar na sua forma de se defender e de contra-atacar. Passou sustos. Mas, no final, encaixou uma boa troca de passes com a defesa adversária aberta e conseguiu o segundo gol, com Yuri Alberto, que entrara no lugar de Lincoln.

Não sei quantos desses garotos estarão em Tóquio-2020 ou no Catar-2022. Mas a sensação que ficou é que há muito o que evoluir. Craque, não vi nenhum. Mas Paulinho, pelo menos, deixou ótima impressão.
Meio-campista Paulinho mostrou bastante qualidade e maturidade acima da média. Foto: Dibyangshu Sarkar / AFP.

domingo, 22 de outubro de 2017

Péssimo Perdedor

Neymar ri da própria expulsão: moleque. Foto: Reuters.
Tarde de domingo no Brasil (noite na França). Olympique de Marseille e Paris Saint-Germain em campo. Uma instituição altamente tradicional recebendo em seu festivo estádio o clube de investimento financeiro mais pesado do planeta na atualidade. Sintomático para uma partida interessante. E não deu outra.

Mas quem esperava um espetáculo do trio MCN (Mbappé, Cavani e Neymar), não viu nada nem perto disso. Os três jogaram abaixo de seu potencial. E os três assistiram o adversário abrir o placar em lindo chute de Luiz Gustavo, mandando de fora da área um remate em curva que levou a bola para fora do alcance do goleiro Alphone Areola. Um prêmio ao volante brasileiro, que era naquele momento e continuou sendo com o desenrolar do jogo o melhor jogador em campo.

Porém, mesmo sem render aquilo que dele se espera, o PSG achou o gol de empate: Rabiot recebeu um tijolo de Neymar e amaciou devolvendo o passe. O astro camisa dez deu um chute mascado, mas que acabou tomando o endereço preciso do canto esquerdo, tocando na trave antes de entrar no gol de Steve Mandanda.

O empate seguiu ao intervalo. E caminhou pelo segundo tempo. A entrada de Draxler no lugar de Thiago Motta até sugeriria um maior ímpeto parisiense. Mas quem fez a diferença tendo saído do banco de reservas foi um jogador do time da casa: Clinton N'Jie recuperou a bola na área adversária e cruzou. Thauvin chegou antes de Thiago Silva e estufou a rede para recolocar o OM em vantagem.

E aí apareceu Neymar. Apareceu não da maneira que os 222 milhões de euros requeririam. Apareceu pelo seu já conhecido temperamento anti-desportivo, a justificar o título dessa postagem: péssimo perdedor.

Sem conseguir apresentar seu melhor futebol, o jogador mais caro da história dessa modalidade esportiva era acompanhado de perto pela forte marcação adversária. Sofria faltas, a grande maioria marcada corretamente pela arbitragem de Ruddy Buquet. Só que a paciência e aceitação de Neymar Júnior com os acontecimentos do jogo muda radicalmente de magnitude dependendo da situação no placar. Sete minutos após o 2a1, recebeu amarelo após agredir um oponente no chão. Sim, na mais pura covardia. E dois minutos depois disso, conseguiu ir além: com o jogo parado, não tolerou um toque por trás do argentino Lucas Ocampos e revidou desproporcionalmente com uma cabeçada na face do companheiro de profissão. Recebeu o segundo amarelo e foi expulso, deixando o campo aplaudindo ironicamente a decisão do juiz. Particularmente, acho que o sr. Buquet errou. Deveria é ter dado o cartão vermelho direto para o jogador.

Sem Neymar mas com força de vontade, o Paris Saint-Germain chegou ao empate nos acréscimos: Cavani sofreu falta de Sarr e ele próprio cobrou com firmeza, vendo a bola bater no travessão antes de entrar. Uma falta que, daquela posição e naquele momento do jogo, talvez fosse cobrada por Neymar. Por sorte da equipe, Neymar já não estava em campo. E o PSG mantém a invencibilidade no Campeonato Francês, com oito vitórias e dois empates. O OM aparece em quinto, com dezoito pontos.

sábado, 19 de agosto de 2017

Manchester United: Eficiente Mas Ordinário

Ao ler a escalação e observar a distribuição posicional dos jogadores do Manchester United para o jogo com o Swansea City, em Gales, criei imediatamente a expectativa de assistir uma grande partida da equipe comandada por José Mourinho. Afinal, um time com Valencia na lateral-direita, além de Matic, Pogba, Mata e Mkhitaryan no meio precisaria de mais o quê? Um exímio centroavante como Lukaku? Resposta: precisaria de um treinador pra fazer esse time render.
Lukaku comemora e United goleia novamente. Imagem extraída de Stepzan.com

Não se iludam com o placar de 4a0. Enganoso é pouco para descrever este resultado com base no que aconteceu de fato e de direito no decorrer da partida no Liberty Stadium. A inauguração na contagem deu-se aos quarenta e quatro minutos no primeiro tempo, em lance de bola parada (gol de Bailly). Só que antes disso, por volta dos trinta de jogo, Paul Pogba deveria ter sido expulso de campo - mas o árbitro Jonathan Moss não teve coragem nem juízo para aplicar o segundo cartão amarelo ao segundo jogador mais caro da história do futebol mundial.

E lá ia o jogo no segundo tempo. O Swansea firme na defesa. O United previsível com a posse de bola. O jogo de baixa qualidade. Talvez fosse um entretenimento menos empolgante do que uma partida de "pinball": pelo menos nessa modalidade famosa nos fliperamas, o objetivo é de fato jogar a esfera pra cima.

Até os trinta e quatro, persistia o um a zero. Mais persistente que isso era a escassez criativa, a falta de jogadas mais elaboradas, a ausência de uma atuação condizente a um elenco tão caro quanto esse que tem sede em Old Trafford. Até que, não mais que de repente, abriu-se um latifúndio no gramado galês. Por ele, penetraram Lukaku (esbanjando seu habitual oportunismo), Pogba (que nem era para estar em campo, né, juizão?) e Martial (que entrara no lugar de Rashford e não precisou de dez minutos para marcar).

Mais um 4a0 para o Manchester United, que aplicara esta mesma goleada na estréia diante do West Ham. Mas não se engane: a julgar pela partida com o Swansea, não há razões para empolgações. É, sem dúvidas, um time competitivo. Porém, exigir mera competitividade de um plantel desse nível é menosprezar a capacidade do futebol ser um esporte que pode ser bem jogado.